O roteiro que eu joguei fora
Cheguei com quarenta slides e três dinâmicas. Saí com quatro perguntas escritas num flip chart.
Era uma equipe de operação, gente que trabalha em campo, e o pedido tinha chegado como “treinamento de comunicação”. Nas conversas de alinhamento, o RH descreveu um time que não se fala, que troca informação pelo mínimo necessário, que deixa recado em vez de conversar. Montei um roteiro em cima disso: escuta, feedback, os fundamentos.
Nos primeiros vinte minutos ficou claro que o problema não era esse.
Eles se falavam muito bem. Se falavam o dia inteiro, no rádio, no grupo de mensagens, no cafezinho. O que não acontecia era conversa entre dois níveis diferentes da hierarquia. O pessoal de campo não levava problema para cima porque, das últimas vezes que levou, a resposta veio como cobrança. Não era falta de repertório de comunicação. Era receio, e receio bem fundamentado.
Se eu tivesse seguido o roteiro, teria dado um bom treinamento. As pessoas teriam aprendido a estrutura de um feedback, teriam feito o exercício em dupla, teriam avaliado bem no formulário do final. E na segunda-feira nada mudaria, porque o que trava ali não é a técnica.
Então parei. Falei que ia mudar o plano e expliquei por quê — isso importa, o grupo precisa saber que a mudança é escolha e não improviso. Passamos as três horas seguintes mapeando o caminho de uma informação ruim, desde o momento em que alguém a descobre até o momento em que ela chega, ou não chega, na diretoria. Onde ela para. Quem segura. O que a pessoa que segura está protegendo.
O material que saiu dali não era meu. Era deles. Eu organizei o fluxo.
Não conto isso como história de esperteza. Conto porque abandonar o roteiro é a parte mais desconfortável do meu trabalho, e é também a que mais me pedem. Quem contrata quer o roteiro, é ele que dá segurança para aprovar a proposta. E quem contrata também quer que funcione, o que às vezes significa não usá-lo.
A diferença entre abandonar o roteiro e não ter roteiro é enorme. Eu chego com quarenta slides preparados justamente para poder largá-los. Sem o preparo, o que sobra quando o plano cai não é adaptabilidade. É improviso.