A pergunta que ninguém faz em voz alta
Toda sala tem uma. É a pergunta que todo mundo já formulou na própria cabeça, que circula no corredor e no grupo paralelo, e que não atravessa a porta da reunião.
Ela costuma aparecer assim: alguém diz uma frase mais comprida do que precisava, olha rápido para o chefe e emenda um “mas enfim”. O “mas enfim” é o som de uma pergunta sendo engolida.
Facilitar é, boa parte do tempo, criar as condições para que essa pergunta seja feita. Não é arrancá-la de alguém. Ninguém deve ser empurrado a se expor num encontro de três horas com gente com quem vai trabalhar pelos próximos dez anos. É construir um lugar onde fazer a pergunta custe menos do que guardá-la.
Algumas coisas ajudam mais do que parecem.
Escrever antes de falar. Quando o grupo registra em silêncio, no papel, a pergunta nasce sem dono e sem plateia. Ler as respostas em voz alta, embaralhadas, tira o peso de ser o primeiro.
Perguntar pelo que não está sendo dito, e não pelo que falta. “O que ninguém falou até agora?” abre uma porta que “alguém quer acrescentar?” mantém fechada.
Combinar no início o que sai da sala e o que fica, e quem vê o material depois. Grupo que não sabe onde a conversa vai parar responde para o registro, não para a discussão.
E, principalmente, o que a liderança faz com a primeira pergunta difícil. Se a resposta for defesa, acabou, e não há técnica que resolva depois. Por isso, quando dá, converso antes com quem lidera. A conversa é exatamente sobre isso: o seu papel aqui não é responder bem, é receber bem.
Já saí de encontros em que a pergunta não veio. Acontece. Às vezes o histórico do grupo é pesado demais para três horas, e insistir seria encenação.
Mas quando ela vem, muda o ritmo da sala. As pessoas endireitam o corpo. A conversa deixa de ser sobre o que deveria estar acontecendo e passa a ser sobre o que está.
Daí em diante, o meu trabalho fica fácil.